Inovar não é um Problema de Ideias

Há algumas semanas, o CEO da Tesla Elon Musk foi marcado em um tweet por um cliente que reclamava de que os espaços de recarga dos carros elétricos da marca eram usados como “estacionamento”. Musk reconheceu o problema, prometeu tomar ação e cumpriu, e agora uma taxa módica é cobrada pelo tempo em que o veículo fica parado após a carga total. O que chama atenção nesse caso não é a ideia em si. É mais significativo se considerarmos que o problema foi apontado em um contato feito por uma rede social onde o CEO possui mais de 6 milhões de seguidores.

Essa história mostra uma questão importante ao se discutir inovação: a de que o problema não está em ter novas ideias. Um texto do autor David Burkus, publicado em 2013 na Harvard Business Review, aponta exatamente para o fato de que o que falta não é “pensar fora da caixa”, mas sim reconhecer as novas ideias – que muitas vezes já estão presentes.

A coluna lista exemplos como a Kodak, criadora primeira câmera digital em 1975, que acabou abandonando a inovação que quase a matou, e a Xerox, que desenvolveu o Alto, primeiro PC com interface gráfica do usuário, mas não investiu na ideia que foi utilizada com grande sucesso pela Apple. O argumento aqui não são esses casos individuais, mas sim um viés que todos compartilhamos contra ideais novas e criativas que apresentem um mínimo grau de incerteza.

Essa tendência foi traçada em um estudo feito por pesquisadores estadunidenses liderados por Jennifer Mueller, da Wharton School da Universidade da Pensilvânia. Os pesquisadores usaram dois grupos para medir percepções sobre criatividade e praticidade. Eles disseram a um dos grupos que eles seriam elegíveis à um pagamento adicional baseado em um sorteio entre os participantes, mas não deram detalhes, criando um grau de incerteza. Ambos os grupos então participaram de testes, pareando dois pares palavras que refletissem criatividade e praticidade com reações positivas ou negativas, e depois avaliar os sentimentos deles sobre criatividade e praticidade em uma escala de 1 a 7. Os resultados mostraram que no grupo em que se criou a incerteza, as pessoas diziam valorizar a criatividade, mas usaram mais pareamentos que favoreciam a praticidade frente à criatividade.

E esse é o ponto central do autor, particularmente relevante para os atuais tempos de incertezas: o de que as mesmas mudanças e instabilidades que instigam uma busca por inovação podem também levar as lideranças a rejeitarem ideias.

Burkus cita ainda uma possível solução, aplicada na Rite-Solutions, uma empresa de softwares norte-americana, para permitir que ideias possam avançar. Lá foi criado um “mercado de ideias”, funcionando de forma similar à uma bolsa de valores, em que colaboradores podem “investir” com uma moeda virtual nas ideias de outros colegas. Em apenas um ano, esse mercado foi responsável por 50% do crescimento de novos negócios da companhia.

Porém, é preciso que essas mudanças nas estruturas das empresas não sejam apenas pontuais. Essa é uma solução de reconhecimento, mas é preciso criar uma cultura de inovação capaz de reconhecer, desenvolver e aplicar novas ideias por toda a companhia, como o demonstrado por Musk. A cultura interna que uma empresa de fato pratica é capaz de criar novos rumos ou decretar o seu fim. Inovar ou morrer não pode ser apenas uma frase – tem que ser ação.



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